Outro dia uma amiga me disse uma coisa muito curiosa: que ela via sempre os mesmos filmes acreditando que teriam um final diferente. O detalhe é que ela acredita verdadeiramente nisso, e me explicando ela disse que sempre assiste mais vezes aqueles com os finais mais idiotas, pra ver se, sei lá, de repente mudam o final. Eu olhei para a cara dela perplexa e ri. Achei uma das coisas mais idiotas que eu já tinha ouvido e tentei explicar, sem sucesso, que o filme já estava gravado e não teria um final diferente, e ela: EU SEI.
Pensei nisso o dia todo, porque o quadro me pareceu grave e eu achei que a menina estava precisando de uma ajuda. Mentira. Todos nós temos aquela pontinha de ilusão. No fundo sempre fazemos algo esperando que seja diferente e ele sai sempre da mesmíssima maneira. No McDonalds, por exemplo, sempre compramos o sanduíche acreditando no comercial, quando na verdade o que vem é um pão broxado com um dois alfaces, um tomate anêmico e um hambúrguer metido nesse meio. Todo começo de ano nós prometemos estudar, perder 17,34kg, parar de ser babaca e ler mais. No final do ano o resultado é ficar de prova final, 17,35kg mais gordo, cem vezes mais babaca, e todos os livros lidos contabilizam 1 (aquele que você foi obrigado a ler). Você sempre espera que seu desodorante te proteja realmente 24hs. E você sempre tem esperança de ter escrito algo de útil naquela prova e só não se lembrar.
E, a parte mais triste - música de enterro, produção - você sempre espera que seu relacionamento novo seja diferente. Melhorando, você sempre espera que VOCÊ seja diferente no seu relacionamento novo. E lá está aquela velha você, protagonizando as mesmas cenas, em outros lugares, com outras pessoas. Lá está você brigando pelas mesmas coisas, recebendo os mesmos conselhos e as mesmas críticas. Lá está você chorando a noite.E toda noite é sempre a última vez, nem venha me iludir. Deve ser como quem quer parar de fumar e fica sempre no último cigarrinho. Não sei. Eu não fumo.
E depois de lembrar disso tudo, eu voltei a lembrar da minha amiga, que só queria que o final do filme fosse diferente. E senti uma pontinha de inveja. Antes um roteiro que uma rotina.
Eu sou um turbilhão de insegurança, e você sabe disso. Eu tenho meus medinhos inabaláveis e por isso me abalo com qualquer coisa. Sou uma mimadinha chata que pega no pé. Uma louca infantil, dramática. Uma suicida de boutique - aquela que só ameaça. Segundo você, eu ainda preciso aprender o que é gostar. Eu pensei nisso todas as horas do meu dia. Como se sabe quando se gosta corretamente? Não foi o próprio Drummond que disse que isso “foge a dicionários e a regulamentos vários”? Pois eu gosto do jeito que me cabe gostar. E meu jeito é insensivelmente sensível demais. Insensível pelo egoísmo, pelo controle, pelo exagero. Assim toda a insensibilidade com o outro é convertida em sensibilidade em mim. É confuso demais? Eu sei. Sei que você não vai entender e eu vou aturar isso, porque, infelizmente, eu ainda gosto de homens. Mais especificamente de você. E você é um turbilhão de segurança. Com uma confiança inabalável e por isso abala qualquer coisa. É um metidinho chato que jamais pegaria no meu pé, por ser orgulhoso. Maduro e racional. Aquele que preza a vida como ninguém. E que vê todas as explicações no Universo. E é óbvio que o seu gostar seria o mais correto. Não é tão óbvio? “É só pensar”. Mas se eu pensar, só quero você na minha cama. E beijando as minhas costas. E depois puxando minhas pernas pra você. Se eu pensar, vou te querer no meu chuveiro. Se eu pensar, já vou começar a escolher o nome de todos os nossos filhos (Anita, Clara, Clarice, Laís, Bernardo, Diogo, João…Sugestões?). É nisso que eu penso, mesmo odiando seu jeito todo-dono-de-si. Mesmo te achando insuportável.
O que me faz pensar que, se com o universo não se brinca, ele deve estar se divertindo às nossas custas.